quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Once

I thought i would once have you. I used to feel you so close to me, but now you're fading, slowly losing myself when starting to miss memories.
I thought you would became the very best part of me, the most crazy adventure. An endless tea party, with your milky-white brightness and so silly clever jokes.
I thought my life would change completely to aloud you to fit on my borders. But i had none.
The place you once had been seems to be no more than agreeable, comfortable, but now is no more than a painful hole in my already absent soul, an emptiness in my already vacant heart, a blindness in my already uncolorful mind. Just one more sadness in my already desperate life.
On top of a cliff of deep depression, a loss of all my hopes.
I thought i would once have you. And i thought being with you would change all my sorrow and give me a chance of fulfill my lack of achievable dreams.
I wish to wish you. With you. Dream your dreams.
I thought i would once have you, but now i don't even know i would have myself back.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Unclogging

Ovomexido

O dia desperta, e você esperta, lê um livro, faz cocô, coloca um cuzcuz para cozinhar, faz duas dúzias de abdominais e entra no banho. 
Aos poucos, a água da banheira começa a descer menos lenta, levando a sujeira que se acumulava por causa do ralo entupido.
O cabelo prende nas unhas postiças, e o piso branco começa a reluzir mais forte, fazendo a vida mais clara, mais leve. Esfoliante no rosto, sabonete íntimo, pasta de dente para dentes sensíveis.
Saindo da água, roupão e toalha nos longos cabelos vermelhos, direto para desligar o fogo que cozinhava o cuzcuz.
Metade de um mamão papaya e decide fazer ovos mexidos. Ovos não. Ovo. Ovo mexido. só um. Ele gruda, não cria volume, parece ralo e difícil de mexer. A maior parte do ovo parece se aderir ao fundo da panela. Ele vai para o prato, mirrado, bagunçado, deselegante. Farelo de um ovo mexido, junto ao pequeno cuzcuz, também amarelo. Um pouco de margarina para engolir. E uma manhã inteira para se sustentar com a parca refeição matutina, singular.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Oito anos



Um dia eu te vi sob as árvores
Daquelas que fazem bastante sujeira
Com folhinhas miúdas caindo muito pra todo lado
Eu tinha enfrentado um outubro terrível
E passava como num alvorecer gelado para novembro
Eu desejava descobrir
Novas coisas
Que me fizessem sorrir.
Naquele dia eu tinha dançado salsa pela primeira vez.
E entrado numa calça que nunca antes tinha ficado tão bem.
Eu adorei seus olhos, mas não tive olhares deles para mim.
Eu decidi, dentre muitas pequenas decisões que tomava naqueles dias,
E que vieram a mudar minha vida para sempre,
Eu decidi que queria te fazer me olhar.
Assim como o almoço daquele dia
E como aquelas folhinhas caídas
Não foi um momento para parar meu dia.
E nem pensei muito nisso nos dias que se seguiram.
E ter finalmente um olhar seu, dos olhos escuros que eu tanto gostei.
Então outras coisas entraram em foco.
Fui te amando devagar.
Cada dia um pouquinho mais.
Sua pele caiu nas pontas dos meus dedos.
E o som da sua risada passou a fazer parte do ar que invadia meus pulmões.
Meus olhos pousaram nas suas mãos e deslizou nos músculos da sua coxa e acima
Sua língua pousou na minha nuca, e deslizou até a minha.
E se encontraram tranqüilas como nos encontramos a nós mesmos,
Naquele dia de fim de primavera.
No primeiro ano, fui aprendendo a me livrar dos meus medos e ser corajosa e forte como você
No segundo, fui aprendendo a ficar feliz e substituir minha diversão melancólica por dias leves e risadas altas;
No terceiro, aprendemos a trocar. Trocamos dias de folga por trabalho, mordomias por dificuldades, trocamos alianças, trocamos os dias de farra pelo comodismo íntimo de nossa casa;
No quarto, invertemos nossos papéis e eu comecei a cuidar de nós e você só de mim, embora ainda meio sem jeito;
No quinto, trocamos o sono por noites em claro e nossa constante companhia costumaz pela agonia de não nos vermos mais, a despeito do desejo e contrário ás possibilidades
No sexto, aprendi a me largar sobre você e você a se esquivar disso. Descobrimos novos lugares e novos hobbies.
No sétimo, aprendemos a nos odiar e cobrar um do outro, a tentar viver sozinhos e por fim, resolvemos experimentar se conseguiríamos
E neste oitavo, aprendemos a nos manter juntos, ainda que separados. Aprendi a ter sua amizade, descomprometidos, mas sem nunca falhar comigo.
Assim você passou a fazer parte dos meus dias,
natural como o lusco-fusco ao fim de cada um deles.
Dias de Rage against the machine, dias de Jack Johnson
Dia de dizer que estávamos nos amando, ainda que não soubéssemos até quando
Dias de comer pizza, de restaurantes caros, de dividir um miojo, de frutos do mar às margens do lago de Garda
Acho que naquele dia, sob as folhas miúdas, eu não sabia como seriam os oito anos que viriam a seguir
Mas também nem pensava nisso.
Não escolhemos nos amar, nem passar todo esse tempo juntos,
Mas acertamos na escolha.
Cometemos erros, nos magoamos um ao outro.
Ninguém nos contou que seria assim
Ninguém nos ensinou a viver dessa maneira
Ninguém nos avisou que logo não teríamos outra opção
Senão essa
De sermos tão imensamente felizes juntos, quanto miseráveis separados.
Demos valor a coisas diferentes
e desprezamos aquilo que ao outro mais importava.
Quando distantes, não imaginávamos que um dia não teríamos o outro perto.
Quando próximos, queríamos mostrar ao outro como era que queríamos viver.
Enfim, mais dor e mais dor
Precisei cada dia mais de você, até engolir o orgulho
E admitir
Que te amo com todos os seus defeitos
Mas não consigo viver com os meus.
Ter você é a desculpa ideal pra tudo o que não gosto em mim.
O perdão definitivo pra o que tenho de imperdoável.
Oito anos se passaram
Vez por outra, ainda brinco de atrair seu olhar
E, embora ainda distante, nunca te senti tão parte de mim quanto hoje.
Com tudo o que vivemos
Em tão pouco e tanto tempo
As linguagens entendidas sem explicação
Que venham mais oito anos
De tudo
De mais erros que acertos
Desde que juntos
De sempre
Pra sempre
De muito
Mais
Além da conta
De infinito
E além
Pra te amar de novo, todos os dias
De sempre
E pra sempre
De infinito
E além.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Ficando Triste


Hoje eu decido ficar triste.
E parar para me lembrar de todas as decisões erradas que tomei
E que fizeram de mim tão fria
Quero abusar da solidão
Degustar cada segundo amargo do silêncio.

Hoje eu quero derramar as lágrimas que teimam em nunca cair
Provocar minha dor e minha capacidade de sentir
Abrir mão de tudo o que me aquece
Ouvir os ecos dos meus sussurros desvairados
Descontrolar os dedos que deslizam pelo teclado

Hoje eu quero ficar triste
Comer pizza
Jogar vídeo game
Ficar sozinha
E só, quando o silêncio me encher
Deixar a torrente do choro contido sair de mim
Porque sempre me obrigo a estar feliz
Porque nunca quero impor minha solidão aos que me fazem companhia
Porque sempre tento ser saudável
E nunca decido voluntariamente me entupir de glúten e lactose
Porque estou sempre trabalhando ou estudando
Porque nunca posso me ocupar de algo improdutivo

Hoje abro mão de estar alegre
Decido viver a contracapa de mim
E ler cada linha com a mesma cautela de quem se lembra como é sofrer
E vivo profundamente essa dor
Pra evitar que mais essa dure pra sempre.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Sobre o Amor e o Divórcio

Eu não escrevi mais nada aqui durante todo esse trajeto. Agora escrevo isso, longo, mas condensado em um só texto. E prometo não mencionar mais o assunto.


Sobre o Amor e o Divórcio


Eu entendo como pessoas que amam podem abominar o divórcio. Só quem teve força e coragem para enfrentar tal situação sabe o quanto é doloroso. E ninguém que ama quer ver o outro sentir dor, ou sofrer. E ninguém que se ama quer isso para si.

O que eu não entendo é como pessoas que abominam o divórcio podem demonstrar tamanha falta de amor aos que passam por ele.

Cansei de ouvir que tenho que me submeter, que sou cruel demais, que tenho que resistir, que tenho que ser psicóloga do meu ex-marido, que tenho que dar o braço a torcer, que tenho que agradecer aos céus que um homem me queira, que eu tive sorte de tê-lo, que ele me agüentou até tempo demais. Cansei também de responder que submeter não é deixar o outro pisar sobre você, que eu queria alguém ao meu lado e não sobre nem sob mim, que resistir não é se manter silenciosamente em sofrimento, que psicóloga é meu emprego e não quem eu sou, que às vezes damos o braço a torcer e as pessoas torcem até quebrar, que tem uma fila de outros homens lamentando não terem a oportunidade que ele teve, que eu não lancei fora minha sorte ( nem ele a dele), que no suportamos mutuamente até ambos decidirmos que queríamos outras felicidades.

Mas o que não me desce pela garganta e ferve minhas entranhas é argumentar que uma mulher cristã não pode se divorciar. Isso é dar um atestado de casamento fajuto, de sofrimento imposto, de hipocrisias, de desrespeito, de falta de amor. Oh! Agora meus valores estão tão invertidos que digo que o divórcio é uma prova de amor?! Não, não estão. Mas eu também não acredito que amor tenha que ter provas. Se teve que ser provado, é porque já não existia. E, se existia, o divórcio não teria acontecido. Mas o amor próprio e a falta de amor do outro podem ter esse resultado alquímico.

Só percebo que dizer que uma mulher cristã não pode se separar é colocar no currículo no processo de seleção masculino que o melhor que ele faz é se casar com uma mulher cristã, independente da fé que ele ostenta, pois ele poderá fazer o que quiser e ter certeza de um jantar quentinho sobre a mesa, as crianças cheirosas para ele exibir e o sexo mal-feito sobre a cama. E tal figura me dá náuseas. O casamento morno, como o próprio Deus não suporta em nosso relacionamento com Ele.

Diante de Deus eu coloquei meus dilemas e o Espírito Santo que habita em mim, e me dá sabedoria e discernimento, me encheu de paz em decidir interromper meu casamento se ele me batesse, me traísse ou me repudiasse. Algumas violências sofridas foram mais dolorosas que a agressão física e ainda pior pois, por não serem visíveis, eram ignoradas e certamente eram dramas meus, chiliques de mulher mandona e exigente demais. Algumas traições, piores do que dividir o seu sexo, mas desconsideradas porque eu devia respeitar as decisões e os detalhes de sua personalidade. E o repúdio final quando, além de tudo isso, que para mim já caracterizava um repúdio, ele voluntariamente decidiu sair de casa, quando se recusou a ter uma família comigo (o casamento era pra quê, mesmo?) ou quando mandou que eu me virasse sozinha, pois quem quis ter filhos fui eu e não ele.

Preciosas mulheres de Deus tenham Deus em si e não num conjunto de regras culturais impostas pelo próprio homem! O Deus que eu conheço, o Deus que eu escolhi servir, é um Deus de Amor. Mais que isso, ele é o próprio Amor! A crueldade com que vocês julgam suas irmãs é tão voraz quanto a espada que lhes cortam ao meio nos países onde nossa fé é perseguida.

Eu não consigo acreditar que o Deus que eu sirvo iria me permitir ter a inteligência que eu tenho, pra que eu tivesse que me submeter ás decisões estúpidas dele sem poder sequer opinar antes que sejam realizadas. Também não posso acreditar que um Deus que me ama iria aceitar ver meu sofrimento e só dizer que eu me resignasse, que o desejo d’Ele era que fosse assim, quando eu, como provedora da minha casa, exausta chegasse e não tivesse nada de acolhedor para meu descanso, senão as cobranças egoístas de um homem que nada fornece, mas deseja tudo que eu puder suprir apenas para si mesmo.

Ainda assim, eu suportei tudo isso, pois fui treinada a acreditar que eu deveria fazer tudo pelos outros sem reclamar, sem esperar nada em troca, por mais que eu às vezes precisasse de apoio ou auxílio.

Eu deveria permanecer impecavelmente linda, mas entender que cada procedimento estético era totalmente egoísta de minha parte, pois consumia tempo e recursos que deveriam ser dedicados ao meu marido.

Eu deveria cuidar da minha saúde, mas deveria fazer isso sozinha e em um horário que ele já não desejasse minha companhia, sem obrigá-lo ao absurdo de me acompanhar aos inúmeros exames no hospital, nem ir com outros amigos fazer uma caminhada no parque (já que ele mesmo não queria ir), pois era fútil e inapropriado fazê-lo.

Eu precisava mudar minha alimentação, sem interferir na dele, e tomar medicamentos que me deixavam num incrível mal-estar, mas sem nunca deixar afetar meu humor quando perto dele. Em suma, eu deveria ser perfeita, me dedicar totalmente, para que me fosse concedido seu compromisso fajuto, mas não o seu amor. Eu fui treinada a acreditar que não era digna de ser amada, nem por mim mesma. Grande parte de nós mulheres fomos ensinadas desta maneira. Não devemos aceitar elogios, não devemos nunca estar seguras de quem somos, pois isso significa ser soberba e orgulhosa, precisamos sempre nos depreciar, sempre encontrar algo em que melhorar, nunca estarmos satisfeitas com nosso trabalho, com nosso desempenho em qualquer atividade, com nosso aspecto físico, com a arrumação de nossa casa. Isso não é dito, mas é cobrado.

Eu segui a cartilha, embora acreditasse que Deus estivesse talvez decepcionado comigo, por ele ter me feito tão perfeita, mas eu nunca reconhecer isto. No máximo, aceitava agradecer a Ele por eu conseguir fazer tal coisa, mesmo tão imperfeita como sou, a despeito de todas as minhas falhas. Sem reconhecer que fui sempre instrumento dos pequenos milagres operados por ele, que eu não precisava dessa perfeição.

Assim, por causa das inúmeras vezes em que fracassei em todas estas coisas que deveria fazer, meu marido fez suas malas e saiu da minha casa. E muitas vezes depois desta data, impôs em mim a culpa que eu deveria sentir, por ele ter ficado sozinho, por ele ter tido que pagar as próprias contas, por ter tido que abdicar das incontáveis horas em frente ao videogame. Afinal de contas, ele precisava curtir sua vida e isso não poderia ser feito com uma mulher tão intragável, exigente, chata ao seu lado. Ou sobre ele. Ou sob ele (o que, de fato, não era o caso).

Eu fracassei em manter o meu marido. Só mais uma prova de minhas inúmeras imperfeições. Fracassei em cuidar da minha saúde, deixei que ele me visse mal humorada, me permiti engordar demais, pedi a ajuda dele para coisas que eu podia ter feito sozinha, ou deixado sem fazer, não tinha refeições quentes quando ele chegava a casa, na verdade, não tinha nem mesmo a cama quente quando ele chegava a casa, porque eu ainda não estava lá.

Eu fui gananciosa e egoísta por que trabalhava num tempo que devia dedicar a ele, por tão ter permanecido linda para que ele me desejasse sexualmente e por ter exigido que ele ajudasse nas contas do lar para que eu pudesse trabalhar um pouco menos e não ficasse tão exausta, pudesse fazer exercícios, me dedicasse aos estudos e aos meus hobbies. Lamentável.

Mesmo assim, apesar de tudo isso, meu Deus permaneceu me amando. Tanto que me presenteou logo em seguida com amor próprio. Assim, quando um mês depois da minha separação meu ex-marido me disse que a vida dele estava melhor assim e que não via chance dele voltar para a “aquela casa”, eu não sucumbi. E mais um mês depois, quando ele passou a desejar ardentemente voltar para “aquela casa”, eu também não sucumbi.

A dor é inevitável, mas o sofrimento, este é opcional. Eu escolho não sofrer, a despeito da dor que eu sinto agora. A falta de respeito de algumas das “mulheres de Deus” a essa dor é, para mim, o testemunho da falta do amor de Deus na vida delas. Me parece aquela cultura antiga de que a mulher “largada” está suja e vai contaminar a quem passar por perto dela. Isso faz com que muitas “mulheres de Deus” se apressem em julgar e repudiar, em lugar de acolher e consolar. Como a mulher que Jesus encontrou junto ao poço, recolhendo água sozinha. Trabalhando para se manter, mas sem poder desfrutar da companhia das outras pela vida promíscua que ela levou. Quão embaraçoso deve ter sido para Cristo ter de pedir-lhe água! Será que a água também não estaria contaminada pela podridão daquela alma? Que escândalo! Alguém deveria ter corrido lá e avisado a Jesus que não falasse com aquela mulher, pois ela era “mulher falada” e já tinha tentado ser amada diversas vezes, sem sucesso. Mas Jesus, sendo o Deus de Amor que eu conheço, a acolheu, perdoou os seus pecados, livrou-a da culpa que ela certamente já sentia e deu-lhe as ferramentas para que ela um dia também superasse aquela dor.

Eu não acredito que esse Deus iria querer que eu levasse minha vida debaixo de porrada, porque "mulheres cristãs não se separam", nem humilhada e traída. O homem que bate, que fica com outras mulheres, que engana, que se aproveita, que mente, que não protege, que não cuida, que não se importa com a felicidade de sua mulher, que não se compromete, não assume responsabilidades, que não se preocupa com a manutenção da família, este já repudiou sua mulher. O que as "mulheres de Deus" esperam? Que se passe a vida inteira rastejando atrás desse homem pedindo que bata mais uma vez, engane mais uma vez, traia mais uma vez, mas não lhes deixe? É como o policial penitenciário que atira em um fugitivo pelas costas. As "mulheres de deus" iriam dizer que o policial está assumindo o risco de matar aquela pessoa. O policial ( e eu) digo que o fugitivo é quem está assumindo o risco de morrer!

Note que aqui eu uso o termo "Mulheres de Deus", mas me refiro a homens e mulheres cheios de religiosidade, mas sem a mostra de amor inevitável aos que têm o Espírito Santo em si, que usam este termo para exortar com crueldade as pessoas que tomaram decisões diversas das deles, ou que foram vítimas das decisões dos outros, como é o caso. 


Deus não me abandonou e, com seu amor, tem me ajudado a superar, inclusive, as palavras cruéis que tive que ouvir por causa da separação. Me indigna que as pessoas usem as palavras de Deus para ferir, quando deveriam o usar o amor nelas contido para sarar.
É inútil persuadir as pessoas a amarem umas as outras. E parece mais difícil ainda que as pessoas entendam que exemplos valem mais que conselhos e sermões. O amor que sinto pelas "mulheres de Deus" que estão em minha vida ao mesmo tempo me açoita, pois o repúdio delas me magoa, e ao mesmo tempo me consola, pois espero que meu exemplo de amor um dia lhes dê suporte para serem tão felizes quanto tenho conseguido ser.

domingo, 18 de novembro de 2012

Fenda


Eu queria ser única e especial.
Queria não sentir tanto frio.
E ficar aqui sentada com meus arrepios.

Queria sentir aquela dor de novo
O aperto no estômago,
o sangue como lascas nos braços
sentir queimar a pele sob meus cabelos vermelhos

Ou de qualquer outra cor.

Eu queria ter de novo aquele sorriso inocente,
aqueles olhos brilhando
que me explicavam silenciosamente
porque eu jamais quis fazer alguém tão feliz.

Queria um dia ouvir o eco da minha risada
tão rara
o toque na ponta dos meus dedos
pentear seus cabelos molhados
andar na frente, os pés descalços

Queria poder te amar
sem saber que você ia me fazer sofrer
Sem ser atropelada pelas adversidades mais fúteis
Poder sonhar que um dia podia ser pra sempre

Mas fico aqui sentada, confusa, perdida, ridícula
Lamentando minha própria inocência
Desejando voltar no tempo
pra não ser tão imbecil
Querendo ser feliz como fui até pouco tempo
Acreditando que eu não fui sempre assim
Esperando que alguém apareça
Me reconheça
e me defenda
de mim.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Sozinha



Entro com o eco dos passos na sala.
Olho para os lados, para ser encarada de volta pelas paredes nuas.
Me perco.
Não quero ver TV, também não quero trabalhar.
Não tenho estômago pra dormir.
Você não está.
Arrastam-me as horas.
Você não está.
Crucificam-me os minutos secos.
Tenho frio, sem ter com quem me esquentar.
Você nem é o que eu queria, mas eu queria, mesmo.
Mas você não está.
E quando nem quero te ver é que te procuro com os olhos,
Com a boca, com o corpo.
Ando em círculos, perdida.
Porque você me faz ficar desencaixar, me deixa fora do meu eixo.
Perco o meu norte, pra invadir o seu.
E quando o que você diz não me interessa
Eu olho seu sorriso e lembro
Porque gosto tanto de você
Porque ansiei o dia todo para estar
Porque o sangue queima em mim ao som da sua voz
Mas você não está
E tudo dói, mas eu esqueço o sentido
De ter sentido
Até você chegar e me fazer sentir
Meu caminho sem destino ainda é melhor que o permanecer
Eu envelheço nos meus círculos
Lutando contra esse nó
Enquanto você não está
Me calo.
Permaneço.
Só.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Canela e gengibre

Hoje ele levou as malas. Hoje eu durmo sozinha.

Na acupuntura, o doutor disse que eu estava com muita energia no pulmão, e pouca nos rins...

Eu me arrumei pra não ter que ficar em casa, mas não quis sair sozinha.

Tenho coisas a organizar, listas a fazer, tenho programas na Net pra assistir, um cãozinho querendo brincar

Mas, eu? Eu só quero andar em círculos tentando tirar essa dor na minha garganta.

Fervo um chá de canela, bem quente, bem forte, com açúcar mascavo, mas eu sei que vou dormir com fome.

Tentando entender porque você fez isso, mas é difícil sem minha bola de cristal...

E tentando entender como pude investir tanto de mim em algo tão vazio e se tudo que tentei fazer de certo foi o que fiz pra errar.

A água do chá secou na panela, de novo. Coloquei mais água e devolvi pro fogo, provavelmente pra cometer o mesmo erro mais uma vez.

Hoje ele levou as malas, mas quase nenhuma diferença fez. Não se nota nada faltando. A bagunça continua a mesma, a casa entulhada de coisas que não tenho onde guardar.

Hoje eu durmo sozinha, só pra perceber que já estava sozinha antes, desde que ninguém me abraça na cama.

Tento fazer circular a energia do pulmão, produzir água pra saciar o desânimo, a perda da memória, as dores nos joelhos.

Hoje eu fico sozinha, como sempre fui, do jeito que eu sempre achei que seria.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Separação

Hoje eu me pego pensando em todas as vezes que me senti preterida e sozinha e só você estava do meu lado... E fico pensando em você me abraçando, mas olhando pro teto, entediado. O pequeno preço a se pagar por uma vida confortável...
Era mentira.
Com tantas mentiras e desonestidades e omissões, não consigo pensar que nada tenha sido real, verdadeiro e honesto.
Me sinto usada, traída, humilhada.
Esse é o meu preço a pagar pela vida que tive também.
Aí me sinto desonesta, mentirosa e omissa. Mas tenho como consolo a certeza de que, mesmo em meio às minhas mentiras, desonestidades e omissões tive igual parcela, senão maior, de verdades, honestidades, muitas honestidades e presença. Só que meu senso de justiça não é suficiente pra aplacar a dor, a confusão, o sofrimento, o abandono e, por fim, a culpa.
E se, em tantas vezes, por medo, eu guardei pra mim meus sentimentos, protegido dessa tristeza, agora faço questão de sentí-la, não apenas como autoflagelo, mas pra não tirar os pés do chão e ficar me perguntando como fui parar onde estou.
Assim como eu sonhei tantas vezes, só que não da mesma forma, um recomeço. E começa assim:
Separação.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Hirsuta

Nada tem expressado melhor meus últimos dias, meses, sentimentos, emoções do que a música. Minha música corre sob minha pele e não tenho conseguido traduzi-la aqui ultimamente. Um desejo de renascer muito meu, é muito íntimo, e sou egoísta demais, para fazê-la escorrer de minhas veias para as pontas de meus dedos. Aqui, Josh Krajcik faz as vezes, expressando o que sinto da forma dele, invadindo o espaço debaixo da minha pele como só um bom músico consegue fazer.

Shorn

baby I feel life moving on
trapped inside the reeling of colliding storms
baby i feel like the bleeding one
and then the love that was lost to us;
it is shorn...
it is shorn...

i miss my babe i miss her mama Lord
i miss the fear of losing love my Lord
i miss the nights i'd lie awake
i miss the drinks i would taste
i miss the love that i hate
it is shorn...

Baby i got some gin and it is waiting
to saturate my soul till i'm feeling reborn
Baby tonight the fight is finally fading
and then the pain that's become my blood;
it is shorn...
it is shorn...

i miss my babe i miss her mama, Lord
i miss the fear of losing love, my Lord
i miss the nights i'd lie awake
i miss the drinks i would taste
and the love that i hate
it is shorn...

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Viagem Comigo – Advanced Mode

Eu tenho Euros, malas prontas, sapatos novos, listas e mais listas, listas de listas que ainda preciso fazer. Eu tenho dúvidas se devo levar meu computador, também se devo levar aquele vestido azul. A bolsa preta vai, com certeza.

Ainda preciso comprar escova de dentes nova e mais presentes pras pequenas que estão lá, tão longe. Eu tenho já o dia de folga, e os sapatos novos, a mala pronta desde domingo passado...

Eu tenho sonhos, tenho saudades, tenho vontades. Tenho a satisfação de realizar desejos, planos, promessas. Eu beijo o cãozinho, sabendo que vou sentir falta dele lá longe e, só pra variar, eu penso em você. Não acho que eu vá sentir mais a sua falta lá, realizando-me, completando ciclos, do que já sinto aqui, todos os dias.

Eu tenho dias, tempos, amores. Tenho fogo e frieza. Tenho ansiedade e mais ansiedade. Anseio pelos sorrisos, pelas lágrimas, pelos suspiros, pelos longos períodos de contemplação, intercalados com o bardear veloz das minhas mãos, aniosas pelo caderno novo.

Tenho que comprar caderno, presentinhos, escova de dentes. Tenho minhas sandálias novas, as passagens, as listas, a mala pronta desde domingo passado.

Tenho ansiedade pela saudade que ainda não estou sentindo. Anseio por saber que gosto, que cara, que cor terá essa saudade tão fácil, tão simples. Anseio por matar a saudade mesmo de quem ainda nem conheci. Anseio por conhecer. E já antevejo a dor da separação tão eloqüente e a expectativa de saber se o gosto, a cara, as cores da saudade que já sinto irão mudar depois de mortas e reavivadas.

Faço lista de prós e contras sobre levar o computador. Conto os euros, faço listas de orçamento.

Reservas de hotéis, e saudades.

Eu tenho tudo o que quero, sempre, por mais que invente coisas novas a desejar.

Saio amanhã, para mais uma viagem comigo, com meus sonhos, meus suspiros, meus longos momentos de contemplação, minhas saudades, minhas ansiedades, minhas listas, meus sapatos, minha nova escova de dentes e minhas malas prontas desde domingo passado...

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Faxina de Ano Novo

Não sei por que, mas no final do ano, sempre acabo correndo para fazer um monte de coisas que faltam para que o ano se dê por terminado. Até parece que ele vai acabar e eu vou ficar pra trás, no ano passado. Ou então que o ano vai acabar quando eu terminar meus afazeres. No final é só um dia atrás do outro, mas eu vou para o próximo dia sem pendências do anterior.

Assim, resolvo arrumar todas as gavetas e separar as roupas que não uso mais. No fim, não sei o que fazer com mais de uma dúzia de meias-calça e percebo a inutilidade de uma gaveta cheia de lingeries “especiais” – eu sou muito mais bonita do que elas... hehehe

Tenho mais camisolas do que calças e muito mais roupa do que tenho espaço para guardar... Isso é bom, eu acho... Por via das dúvidas, junto sacolas bem grandes para levar embora as roupas desprezadas.

No último dia, enfim, consigo colocar tudo em ordem, faltando apenas umas louças sujas na pia e arrumar espaço onde colocar materiais de estudo para aulas que nem leciono mais.

Faço uma máscara facial e hidrato os cabelos. Escolho as roupas para usar à noite.

O Alexandre chega mais cedo do trabalho, animadíssimo com uma garrafa de Courmayeur, cheio de planos e mil propostas de festas.

No fim, só queremos ficar com as pessoas com quem estivemos todos os outros dias corriqueiros do ano que se passou. Nem foi lentamente, nem foi rápido demais. Demorou mais ou menos um ano. Ainda assim, ficamos ansiosos para que o ano acabe, confiantes de que o próximo será melhor, sem no entanto ter muita certeza de que fizemos algo para que o próximo ano seja de fato melhor.

No fundo, acho que nem sabemos bem o que esperamos.

Esse ano não quero trabalhar mais, nem melhor. Quero que o salário aumente. As folgas também. Não tenho planos de concluir os muitos cursos que deixei pela metade. Parece que quero andar pra trás ou pros lados...

Quero meu laboratório fotográfico pronto e tempo para usá-lo. Dias bonitos e ocasiões para tirar fotos. Mais aulas de dança e menos de psicologia. Mais poesias e menos crônicas. Quero reler mais dos livros que li na infância e não tenho nenhum plano de ler Skinner.

Quero gastar menos, para poder gastar mais nas minhas preciosas férias em maio.

Quero que os bebês nasçam logo pra eu vê-los abrindo os olhinhos, engatinhando, falando.

Esse ano não tenho planos, tenho colheitas. De frutos que virão independentes de mim.

Esse ano não quero realizar, quero usufruir.

Estou cada dia mais descansada e desejando descansar... Eu bem pensei que queria ser menos bobalhona, mas ainda não consigo ver o que teria de bom nisso.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Despertando

Abro os olhos numa sexta-feira, cheia de afazeres não feitos no trabalho. O dia promete ser bem atribulado. Ainda assim, abro os olhos devagar, ciente de que o despertador ainda não tocou. Faço tudo devagar, levanto-me devagar, seduzo devagar, convenço devagar, amo devagar, e vou me arrastando para um banho que já devia ser apressado. Canto em voz alta sob a água, certa de que o som me sai doce e agradável. Saio andando molhada, observando minhas curvas e minha pele ainda levemente dourada.

Hoje encontrei duas gavetas de roupas minhas que eu nem lembrava que existiam, como um tesouro perdido despencando do céu no meu colo. Hoje uso preto, uma blusa que eu nem sabia que tinha. Acrescento um cinto fino, sem necessidade, e um bracelete de couro, com detalhes semelhantes. Faltam vinte minutos para entrar no trabalho e ainda não penteei os cabelos. Enfio os pés numa sapatilha de pano, parceira fiel nas badaladas noites de dança de salão. Ajeito os cabelos, fazendo seu novo cumprimento emoldurar-me o rosto e pego uma pontinha de pomada para garantir que ficarão assim e para estilizar o arrepiado atrás, que uso desde sabe-se-lá-quando. 9 minutos depois estou em frente ao elevador, o gosto doce de um copo de iogurte ainda nos lábios. Desço os vinte andares passando protetor solar no rosto, mirando o meu reflexo no vidro negro das paredes.

Hoje amanheceu um dia quente, com cheiro de domingo. Ouço Dave Matthews e Oasis no caminho. Dirijo leve, como seu eu soubesse o que estou fazendo.

Fazem mais de dois meses que, por conta própria, interrompi o uso dos antidepressivos. Isto mesmo, no plural. Passados os dias de sono insuportável, de insegurança e oscilação, de morosidade e melancolia, de compulsões incontidas, finalmente, movimento-me com a leveza de quem dormiu o suficiente, sem pesadelos, achando-me bonita, achando tudo belo. Acordo nesse calor de dezembro, anunciando o início do verão e a poesia está lá, me encarando com um sorriso misterioso e travesso. Atravesso as avenidas e a arte está lá, me contemplando como se eu fosse uma galeria com uma nova exposição. A irreparável consciência da finitude de volta à disposição para realizar, para viver. A plenitude voltando a existir para mim, sem nunca ter abandonado os meus dias, de fato. As estáticas paisagens cinzentas de repente movimentam-se em frenesi, cheias de cores vivas.

Quando me gosto, ouço rock, visto-me de punk, abandono os saltos altos.

E, como se só agora soubesse, penso em todas as coisas boas, as pessoas que cruzaram nestes dias pisando minhas raízes.


Desperto mais uma vez, torcendo para ficar maníaca nestes dias, para comemorar as festas com minha família, gastar tudo o que não tenho em presentes às pessoas que amo, ansiosa por ver o quanto Aninha cresceu, o Bê liderando a gang, o Arthur aprontando todas, como se nada mais importasse, o Rafa deixando rapidamente a infância para se tornar um rapazinho esperto...

Aí quero fazer festinhas para os muitos bebês que estão para chegar...

Divertir minhas amigas que estão para casar...

Kilda tinha razão: Como eu sou boba! Tudo isso já estava aí!

É como se eu estivesse sob as águas do tororomba, não com a leveza gelada que elas têm, mas imersa naquela escuridão intransponível e, simples como acordar de manhã, romper a superfície com o ar cálido invadindo meus pulmões exauridos.


Fim da Nova Viagem Comigo - 4ª edição






Sento com minha mãe às margens do mar na praia de batuba, sabendo num relance que ela não vai suportar ficar ali, parada. Sorrio para

mim e ela quer saber porque, mas eu não sei colocar em palavras.

Gosto disso, de visitar um lugar e ficar agindo por

aqueles poucos dias

como se eu morasse ali. Como se descer a rua para tomar uma piña colada numa espreguiçadeira fosse parte da minha rotina diária, fizesse parte da lista dos meus afazeres cotidianos tanto quanto despertar, escovar os dentes, ir para o trabalho.


Passamos os dias subindo aquelas ladeiras sem nenhuma vez fazer num dia o mesmo que foi feito em outro. Comemos peixe e frutos do mar até a sua simples menção fazer enjoar o estômago. Conhecemos pessoas novas, lugares – paradisíacos! - novos. Na quinta-feira seguinte nos deleitamos com costelinha de porco, na terça anterior, Coré. Um dia ou outro pasta com

camarões e salmão. Um dia passamos no Tororomba, comemos bolinhos absurdamente gordurosos, visitamos o cemitério do local, enchendo as cabeças com histórias para serem contadas, bebemos água das fontes ferruginosas do local. Uns dias sequer almoçamos propriamente, andando em Ilhéus beliscando kibes, sorvetes e pudim de leite.

Triste tirar férias sem estar propriamente cansada, mas sempre boa a sensação de conhecer o novo, reconhecer o velho, aventurar-me a rir até a barriga doer, arriscar-me conhecer pessoas para me despedir depois com um abraço temeroso.


Volto para Brasília com aquele sensação que dá quando seu sobrinho te chama pra brincar, mas você está ocupado. Ansiosa para terminar meus afazeres e descobrir que novas aventuras a imaginação dele pretende te levar, o mais rápido possível. Mas retorno de novo, só pra ter logo a sensação de dever cumprido que me trará o início do meu próximo descanso.


04-11-2010 – Saindo de Casa, Voltando pra Casa



Volto para minha casa, no lugar onde me escondo. Parece até ligeiramente irreal, parece uma lembrança, às vezes espero acordar, como se sonhasse, depois de ter sonhado tantas vezes com este lugar, tentando trazer minha mãe comigo. Nos sonhos, os lugares eram diferentes do que realmente são e as situações eram uma mais sem sentido que a outra e nunca conseguíamos chegar, para eu mostrar à minha mãe, irmã, amor, irmão, cunhada, pai, os deslumbramentos que este lugar me provoca. Agora chego aqui e tudo é simples e natural, como se eu sequer houvesse antes partido. Como se o tempo que passei no meu apartamento no 20º andar, as idas e vindas à casa de minha mãe, os longos trajetos até o trabalho, umas duas ou três cidades ao sul de bsb, tudo, fosse não mais que um breve pesadelo do qual acordo esvanecendo em fiapos as lembranças e, ao saltar da cama nem lembro que sonhei.

Sento no meu ansiado silêncio, para assimilar tudo isso, pra poetizar piegas sobre minha felicidade, pra me sentir plena e bem sucedida, para criar e ter mais sonhos a tornar concretos. Mais um suspiro e desprezo a desnecessidade de registrar tudo aqui, só viver, só viver e, quem sabe emendar nestes pensamentos mais um breve cochilo.

uma das únicas fotos minhas sem o chapéu na cabeça...

Fractais - O Preço do Apreço



Um dia decidi não desmarcar mais compromissos. E, ao mesmo tempo, decidi comprometer-me comigo e comigo apenas.

Aí, a paixão pela música e pelas descobertas venceram o constrangimento de sair sozinha. Parei de comprar quilos de queijo e litros de vinho para as festas na minha casa. E passei a ir aos pubs, mesmo quando todo mundo furava.

Meus amigos se tornaram pessoas mais leves e variadas – e a levar petiscos e bebidas às festas – e eu tomei gosto tal por sair sozinha que parei de convidar as pessoas. Assim, comecei a conhecer pessoas novas, com preferências semelhantes às minhas, que vieram a preencher as festas na minha casa.

Perdi muito da minha timidez natural, passei a conversar com interessantes estranhos. Comecei a gostar tanto disso, que passei a viajar sozinha nas férias e ter novas pessoas de quem sentir saudade, nos intervalos dos meus atendimentos.

Descobri que gostava da minha voz e da minha companhia!

Passei a estar de passagem sem carregar comigo nenhuma mala ou mobília.

Eu nunca mais fui só. Até os lugares passaram a ser parte de mim, como amigos queridos.

Hoje eu conheço um novo pub, com novos nomes pras mesmas bebidas, com pessoas com roupas bonitas, cuidadosamente escolhidas, uma nova mesinha isolada, pra me sentar só e ouvir bandas novas, tocando velhas músicas...

domingo, 3 de outubro de 2010

Outros Outubros

Para não decepcionar ninguém e em reconhecimento dos que esperaram.

Depois de votar, sentei-me ainda pensando no futuro do país. A cabeça latejando de dor, a ponto de dar-me náuseas.Angustiada, desisti de ficar apenas deitada na cama branca da minha mãe e decidi subir e cuspir com as letras minha enxaqueca.

Eu, na verdade, não ia fazer nenhuma edição de outubro, pois sequer notei que outubro havia chegado. Eu estava lá ocupada com as trocas de servidores no trabalho, a viagem no meio disso tudo, a falta de grana, a remarcação das férias, os bebês da família, a falta de grana, o serviço novo do marido, o tempo ocioso do marido, a falta de grana...

Um dia, percebo que, à toa, estou com um nó não desfeito na garganta e em diversos músculos do corpo. Na sexta me arrumo e dirijo uns 50Km para despedir-me de um amigo querido por uns cinco minutos e, sem perceber, estou no carro de volta e as lágrimas vêm fortes aos olhos. Tão frustrada com tudo, apesar de tudo estar tão bem! Aí chego em casa e vejo o email da Clau me desejando um feliz outubro, me lembrando que é outubro. Muitas outras cobranças para os textos vêm. Eu nem ia escrever nada, não tendo percebido que o mês acabou. Pra mim isso só representa a entrada do meu salário na conta. Eu não queria mais estabelecer ligação entre esses eventos, mas não tem como evitar.

Mas não queria mais escrever sobre meus outubros, meus dias cinzentos do final de setembro, as chuvas em novembro. Todo ano meus textos são iguais, todo ano sofro em outubro. E me provoco ainda mais dor me afastando de todo mundo com a minha melancolia travestida em mau humor.

Os olhos enxarcados, mas sem tempo para soluçar. Sinto saudade dos dias que me encolhia gemendo, desejando ardentemente não amar ninguém, só a mim, só a mim. Nada disso resolve, só traz mais dor.

Eu não escrevo mais poemas, meus sentimentos não têm mais cor, eu apenas admito friamente que amo a despeito das ações que faço. Mesmo assim, as palavras atropelam minha língua e meus dedos. Mesmo assim, ainda tenho gente ansiosa pela postagem nesse blog bobo, me mandando emails, tentando me fazer sentir melhor apenas disso tudo.

Neste outubro, como nos outros, quero apenas ficar sozinha. Desamar! Desmagoar! Quero esconder-me para que ninguém me toque e omitir-me de tocar também. Mas cansei dessa gangorra, dessa montanha russa emocional. Cansei de ficar dengosa, te querendo perto e agressiva, alimentando raiva tentando te odiar, por ficar tão distante. Cansei!

Mas agora pareço tão distante da paz que nem mais sei se isso existe ou é possível. Deixo-me, declino-me, abandono-me, longamente me espero pra só retornar quando eu puder esperar por março.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Fim da Nova Viagem Comigo - 3ª edição

Levantei-me, enfim, para o banho decidindo severamente comprar-me uma “havaiana”. Desesperei-me com os 4 registros do chuveiro. Liguei o 1º, a água saiu fria. Fechei. Liguei o 2º. A água saiu gelada. Tornei ao 1º e esperei mais tempo dessa vez, até a água estar quente o bastante para tomar coragem de molhar-me inteira. Depois de um tempo a água estava agradavelmente quente, depois um pouco mais, quando os braços estavam dormentes e formigando consegui ajustar a temperatura e o banheiro já era todo uma sauna a vapor e eu, toda vermelha, achei que era o bastante e dei o banho por encerrado. Aprontei-me rápido e achei-me linda em minhas roupas de frio.

Comi pães, sanduíches frios, queijos, ovos mexidos, saladas de frutas com generosas colheradas de um creme branco parecido com chantili e por último, uma grossa fatia de pudim de leite com caramelo.

Tudo em Campos tem cara de Natal, até as luzinhas piscando. Jardineiras flori

das, cafonas, sob as janelas, cheiro de chocolate quente e canela. Venho elegante em meu casaco vermelho-cereja, ventilar minhas idéias na esperança de renovar aquilo que faço todo dia.


Reconheci velhos conhecidos jovens como eu, ouvi nomes de pessoas velhas trazendo temas novos e me envelheci, sem paciência com os aluninhos que perturbavam as palestras, provavelmente sem conseguir entendê-las. Depois envelheci ainda

mais, sem dar conta de passar a noite acordada, tomando vinho com algumas das pessoas mais ilustres presentes ali, “celebridades” de nosso pequeno mundinho acadêmico.

Pude fazer tudo o que mais gosto, embora exausta com tantas "aulas" e pululando de novas idéias pro trabalho, ainda pude experimentar truta ao molho de alcaparras, comer até não aguentar mais, acordar sem despertador, tomar banho bem quente demorado, apaixonar-me pelos lugares, pelas coisas, pelas pessoas, por mim. Pude transgredir e me sentir ótima depois, pude divulgar-me e ao meu trabalho, fazer planos e projetos com pessoas mais importantes que eu. Conhecer pessoas e a mim, por consequencia. Assumir-me tímida, em vez de fingir que não sou (porque tenho vergonha de ser tímida) e permitir-me envolver e expressar o amor que desenvolvi por essas pessoas. Só por isso já valia toda a viagem e o grande rombo orçamentário que adquiri por causa dela.

Volto para Brasília com raiva do calor seco e da fumaça, desejando passar o resto da vida em divagação intelectual, taças de vinho bom, piadas inteligentes, numa cidade deliciosa como Campos. Sinto-me ansiosa antes de embarcar no avião, e para despedir-me com muitos abraços sinceros e apertados nos amigos que tornaram a viagem ainda mais especial.

Mas volto e Brasília está quente, seca e esfumaçada. O ar que vem de lá provoca turbulências no avião e em mim. Desço já com outros pensamentos, ansiosa pelo seu amor, sua voz, seu toque, seu sexo. Tomo mais uma taça de vinho antes de dormir e acordo no outro dia com as fortes dores de cabeça, decorrentes do clima, da ressaca e, principalmente, da abstinência de tudo aquilo.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Nova viagem comigo - 3ª edição


Saio para uma curta aventura solitária, como prenúncio da próxima.

Subo pelos ares e, rápido, a colcha de retalhos do entorno de brasília se transforma num

cobertor felpudo, amarfanhado sobre uma cama gigantesca, em minas. Por trás da minúscula janela do avião, vejo um dos pores-do-sol mais belos da minha vida, sob aquele clima que só BH me traz.

Vontade de descer e sentir-me de novo naquela cidade, como um novo início da vida, só que voltando ao passado.

Rápido demais subimos de novo, para o infinito multicolorido, parecendo tela de zeração de jogos antigos, de atari. O sol escondido, deixando acima de si tons acobreados de laranja, vermelho, verde e azul. O céu, enfim, começa a talhar-se de nuvens espessas, inexistentes no planalto central nesse período. Quando a noite termina de cair, logo vemos o mar de pontos dourados, enlouquecidos, que é são paulo. A temperatura ainda amena, confusão fazendo parte da rotina para partirmos para o destino final. Arrasto as duas malas pelo aeroporto e afora.

Quase meia noite chegamos em Campos do Jordão, eu na minha simpática solidão silenciosa. Me engano que o frio profundo que sinto é devido ao horário. A cidade toda parece um glaçado de natal, ou um cenário de brinquedo, como o que eu tinha, da guliverlândia.

Acomodo minhas roupas correndo do tapete ao armário e de volta. O piso gelado. O aquecedor parece não funcionar, embora a seu lado eu sinta o calor na máxima potência. Tiro fotos de mim, achando-me bonita.

Uma enorme cama fofa repleta de cobertas sorri pra mim, tímida, mas convidativa e eu não hesito em desfraldá-la, fazendo bagunça nas muitas colchas, presas nas laterais. Acordo no outro dia com mais frio do que estava na madrugada. Cubro a cabeça pra me esquentar, sabendo que devia era ter ali o seu corpo que o faria maravilhosamente.

Não consigo voltar a dormir, o despertador toca em seguida, trazendo também uma mensagem da minha mãe, preocupada.

Salto da cama, escolhendo mentalmente a roupa a vestir e me questionando se os casacões comprados exclusivamente para esta ocasião serão suficientes e me preparo pra enfrentar minha timidez e a multidão que que espera de fora da porta, na minha pequena jornada intelectual, descanso para os dias de mera execução de tarefas profissionais.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O Farol

Hoje eu decidi chorar, mesmo sabendo que não tenho lágrimas. Então o fiz do meu jeito, ficando vermelhinha e agarrando-me ao meu violão e às músicas tristes que me vêm, existam elas ou não.

Contando os segundos para o fim da minha paz solitária. E me senti mais estúpida que de costume, com as decisões erradas que tomei, os caminhos errados, as palavras erradas, as danças erradas com as músicas erradas... Eu vivo uma vida com poucos arrependimentos, mas basta um...

O ruim de ser sozinha é não ter colo. E quando chega, todas as noites, o fim da minha solidão, me sinto ainda mais vazia e estranha. Nenhuma companhia aplaca minha triste clausura voluntária. Só eu cuido de mim. Só eu me importo comigo. Só eu me dou o trabalho de me deixar feliz. Só.

Eu sei que de alguma forma a felicidade está dobrando a esquina, mas por alguma razão eu continuo presa no farol.

Mas não sou de ficar esperando que alguém resolva por mim meus problemas, continuo inertemente buscando pequenas soluções para os meus pequenos probleminhas cotidianos, minhas coisinhas de mulherzinha. Tecla por tecla no meu piano.

Continuo pequena e, na minha pequenez, me dou o direito de magoar-me com meus esforços solitários. Tudo pequeno demais pra ser importante.