quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Canela e gengibre

Hoje ele levou as malas. Hoje eu durmo sozinha.

Na acupuntura, o doutor disse que eu estava com muita energia no pulmão, e pouca nos rins...

Eu me arrumei pra não ter que ficar em casa, mas não quis sair sozinha.

Tenho coisas a organizar, listas a fazer, tenho programas na Net pra assistir, um cãozinho querendo brincar

Mas, eu? Eu só quero andar em círculos tentando tirar essa dor na minha garganta.

Fervo um chá de canela, bem quente, bem forte, com açúcar mascavo, mas eu sei que vou dormir com fome.

Tentando entender porque você fez isso, mas é difícil sem minha bola de cristal...

E tentando entender como pude investir tanto de mim em algo tão vazio e se tudo que tentei fazer de certo foi o que fiz pra errar.

A água do chá secou na panela, de novo. Coloquei mais água e devolvi pro fogo, provavelmente pra cometer o mesmo erro mais uma vez.

Hoje ele levou as malas, mas quase nenhuma diferença fez. Não se nota nada faltando. A bagunça continua a mesma, a casa entulhada de coisas que não tenho onde guardar.

Hoje eu durmo sozinha, só pra perceber que já estava sozinha antes, desde que ninguém me abraça na cama.

Tento fazer circular a energia do pulmão, produzir água pra saciar o desânimo, a perda da memória, as dores nos joelhos.

Hoje eu fico sozinha, como sempre fui, do jeito que eu sempre achei que seria.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Separação

Hoje eu me pego pensando em todas as vezes que me senti preterida e sozinha e só você estava do meu lado... E fico pensando em você me abraçando, mas olhando pro teto, entediado. O pequeno preço a se pagar por uma vida confortável...
Era mentira.
Com tantas mentiras e desonestidades e omissões, não consigo pensar que nada tenha sido real, verdadeiro e honesto.
Me sinto usada, traída, humilhada.
Esse é o meu preço a pagar pela vida que tive também.
Aí me sinto desonesta, mentirosa e omissa. Mas tenho como consolo a certeza de que, mesmo em meio às minhas mentiras, desonestidades e omissões tive igual parcela, senão maior, de verdades, honestidades, muitas honestidades e presença. Só que meu senso de justiça não é suficiente pra aplacar a dor, a confusão, o sofrimento, o abandono e, por fim, a culpa.
E se, em tantas vezes, por medo, eu guardei pra mim meus sentimentos, protegido dessa tristeza, agora faço questão de sentí-la, não apenas como autoflagelo, mas pra não tirar os pés do chão e ficar me perguntando como fui parar onde estou.
Assim como eu sonhei tantas vezes, só que não da mesma forma, um recomeço. E começa assim:
Separação.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Hirsuta

Nada tem expressado melhor meus últimos dias, meses, sentimentos, emoções do que a música. Minha música corre sob minha pele e não tenho conseguido traduzi-la aqui ultimamente. Um desejo de renascer muito meu, é muito íntimo, e sou egoísta demais, para fazê-la escorrer de minhas veias para as pontas de meus dedos. Aqui, Josh Krajcik faz as vezes, expressando o que sinto da forma dele, invadindo o espaço debaixo da minha pele como só um bom músico consegue fazer.

Shorn

baby I feel life moving on
trapped inside the reeling of colliding storms
baby i feel like the bleeding one
and then the love that was lost to us;
it is shorn...
it is shorn...

i miss my babe i miss her mama Lord
i miss the fear of losing love my Lord
i miss the nights i'd lie awake
i miss the drinks i would taste
i miss the love that i hate
it is shorn...

Baby i got some gin and it is waiting
to saturate my soul till i'm feeling reborn
Baby tonight the fight is finally fading
and then the pain that's become my blood;
it is shorn...
it is shorn...

i miss my babe i miss her mama, Lord
i miss the fear of losing love, my Lord
i miss the nights i'd lie awake
i miss the drinks i would taste
and the love that i hate
it is shorn...

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Viagem Comigo – Advanced Mode

Eu tenho Euros, malas prontas, sapatos novos, listas e mais listas, listas de listas que ainda preciso fazer. Eu tenho dúvidas se devo levar meu computador, também se devo levar aquele vestido azul. A bolsa preta vai, com certeza.

Ainda preciso comprar escova de dentes nova e mais presentes pras pequenas que estão lá, tão longe. Eu tenho já o dia de folga, e os sapatos novos, a mala pronta desde domingo passado...

Eu tenho sonhos, tenho saudades, tenho vontades. Tenho a satisfação de realizar desejos, planos, promessas. Eu beijo o cãozinho, sabendo que vou sentir falta dele lá longe e, só pra variar, eu penso em você. Não acho que eu vá sentir mais a sua falta lá, realizando-me, completando ciclos, do que já sinto aqui, todos os dias.

Eu tenho dias, tempos, amores. Tenho fogo e frieza. Tenho ansiedade e mais ansiedade. Anseio pelos sorrisos, pelas lágrimas, pelos suspiros, pelos longos períodos de contemplação, intercalados com o bardear veloz das minhas mãos, aniosas pelo caderno novo.

Tenho que comprar caderno, presentinhos, escova de dentes. Tenho minhas sandálias novas, as passagens, as listas, a mala pronta desde domingo passado.

Tenho ansiedade pela saudade que ainda não estou sentindo. Anseio por saber que gosto, que cara, que cor terá essa saudade tão fácil, tão simples. Anseio por matar a saudade mesmo de quem ainda nem conheci. Anseio por conhecer. E já antevejo a dor da separação tão eloqüente e a expectativa de saber se o gosto, a cara, as cores da saudade que já sinto irão mudar depois de mortas e reavivadas.

Faço lista de prós e contras sobre levar o computador. Conto os euros, faço listas de orçamento.

Reservas de hotéis, e saudades.

Eu tenho tudo o que quero, sempre, por mais que invente coisas novas a desejar.

Saio amanhã, para mais uma viagem comigo, com meus sonhos, meus suspiros, meus longos momentos de contemplação, minhas saudades, minhas ansiedades, minhas listas, meus sapatos, minha nova escova de dentes e minhas malas prontas desde domingo passado...

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Faxina de Ano Novo

Não sei por que, mas no final do ano, sempre acabo correndo para fazer um monte de coisas que faltam para que o ano se dê por terminado. Até parece que ele vai acabar e eu vou ficar pra trás, no ano passado. Ou então que o ano vai acabar quando eu terminar meus afazeres. No final é só um dia atrás do outro, mas eu vou para o próximo dia sem pendências do anterior.

Assim, resolvo arrumar todas as gavetas e separar as roupas que não uso mais. No fim, não sei o que fazer com mais de uma dúzia de meias-calça e percebo a inutilidade de uma gaveta cheia de lingeries “especiais” – eu sou muito mais bonita do que elas... hehehe

Tenho mais camisolas do que calças e muito mais roupa do que tenho espaço para guardar... Isso é bom, eu acho... Por via das dúvidas, junto sacolas bem grandes para levar embora as roupas desprezadas.

No último dia, enfim, consigo colocar tudo em ordem, faltando apenas umas louças sujas na pia e arrumar espaço onde colocar materiais de estudo para aulas que nem leciono mais.

Faço uma máscara facial e hidrato os cabelos. Escolho as roupas para usar à noite.

O Alexandre chega mais cedo do trabalho, animadíssimo com uma garrafa de Courmayeur, cheio de planos e mil propostas de festas.

No fim, só queremos ficar com as pessoas com quem estivemos todos os outros dias corriqueiros do ano que se passou. Nem foi lentamente, nem foi rápido demais. Demorou mais ou menos um ano. Ainda assim, ficamos ansiosos para que o ano acabe, confiantes de que o próximo será melhor, sem no entanto ter muita certeza de que fizemos algo para que o próximo ano seja de fato melhor.

No fundo, acho que nem sabemos bem o que esperamos.

Esse ano não quero trabalhar mais, nem melhor. Quero que o salário aumente. As folgas também. Não tenho planos de concluir os muitos cursos que deixei pela metade. Parece que quero andar pra trás ou pros lados...

Quero meu laboratório fotográfico pronto e tempo para usá-lo. Dias bonitos e ocasiões para tirar fotos. Mais aulas de dança e menos de psicologia. Mais poesias e menos crônicas. Quero reler mais dos livros que li na infância e não tenho nenhum plano de ler Skinner.

Quero gastar menos, para poder gastar mais nas minhas preciosas férias em maio.

Quero que os bebês nasçam logo pra eu vê-los abrindo os olhinhos, engatinhando, falando.

Esse ano não tenho planos, tenho colheitas. De frutos que virão independentes de mim.

Esse ano não quero realizar, quero usufruir.

Estou cada dia mais descansada e desejando descansar... Eu bem pensei que queria ser menos bobalhona, mas ainda não consigo ver o que teria de bom nisso.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Despertando

Abro os olhos numa sexta-feira, cheia de afazeres não feitos no trabalho. O dia promete ser bem atribulado. Ainda assim, abro os olhos devagar, ciente de que o despertador ainda não tocou. Faço tudo devagar, levanto-me devagar, seduzo devagar, convenço devagar, amo devagar, e vou me arrastando para um banho que já devia ser apressado. Canto em voz alta sob a água, certa de que o som me sai doce e agradável. Saio andando molhada, observando minhas curvas e minha pele ainda levemente dourada.

Hoje encontrei duas gavetas de roupas minhas que eu nem lembrava que existiam, como um tesouro perdido despencando do céu no meu colo. Hoje uso preto, uma blusa que eu nem sabia que tinha. Acrescento um cinto fino, sem necessidade, e um bracelete de couro, com detalhes semelhantes. Faltam vinte minutos para entrar no trabalho e ainda não penteei os cabelos. Enfio os pés numa sapatilha de pano, parceira fiel nas badaladas noites de dança de salão. Ajeito os cabelos, fazendo seu novo cumprimento emoldurar-me o rosto e pego uma pontinha de pomada para garantir que ficarão assim e para estilizar o arrepiado atrás, que uso desde sabe-se-lá-quando. 9 minutos depois estou em frente ao elevador, o gosto doce de um copo de iogurte ainda nos lábios. Desço os vinte andares passando protetor solar no rosto, mirando o meu reflexo no vidro negro das paredes.

Hoje amanheceu um dia quente, com cheiro de domingo. Ouço Dave Matthews e Oasis no caminho. Dirijo leve, como seu eu soubesse o que estou fazendo.

Fazem mais de dois meses que, por conta própria, interrompi o uso dos antidepressivos. Isto mesmo, no plural. Passados os dias de sono insuportável, de insegurança e oscilação, de morosidade e melancolia, de compulsões incontidas, finalmente, movimento-me com a leveza de quem dormiu o suficiente, sem pesadelos, achando-me bonita, achando tudo belo. Acordo nesse calor de dezembro, anunciando o início do verão e a poesia está lá, me encarando com um sorriso misterioso e travesso. Atravesso as avenidas e a arte está lá, me contemplando como se eu fosse uma galeria com uma nova exposição. A irreparável consciência da finitude de volta à disposição para realizar, para viver. A plenitude voltando a existir para mim, sem nunca ter abandonado os meus dias, de fato. As estáticas paisagens cinzentas de repente movimentam-se em frenesi, cheias de cores vivas.

Quando me gosto, ouço rock, visto-me de punk, abandono os saltos altos.

E, como se só agora soubesse, penso em todas as coisas boas, as pessoas que cruzaram nestes dias pisando minhas raízes.


Desperto mais uma vez, torcendo para ficar maníaca nestes dias, para comemorar as festas com minha família, gastar tudo o que não tenho em presentes às pessoas que amo, ansiosa por ver o quanto Aninha cresceu, o Bê liderando a gang, o Arthur aprontando todas, como se nada mais importasse, o Rafa deixando rapidamente a infância para se tornar um rapazinho esperto...

Aí quero fazer festinhas para os muitos bebês que estão para chegar...

Divertir minhas amigas que estão para casar...

Kilda tinha razão: Como eu sou boba! Tudo isso já estava aí!

É como se eu estivesse sob as águas do tororomba, não com a leveza gelada que elas têm, mas imersa naquela escuridão intransponível e, simples como acordar de manhã, romper a superfície com o ar cálido invadindo meus pulmões exauridos.


Fim da Nova Viagem Comigo - 4ª edição






Sento com minha mãe às margens do mar na praia de batuba, sabendo num relance que ela não vai suportar ficar ali, parada. Sorrio para

mim e ela quer saber porque, mas eu não sei colocar em palavras.

Gosto disso, de visitar um lugar e ficar agindo por

aqueles poucos dias

como se eu morasse ali. Como se descer a rua para tomar uma piña colada numa espreguiçadeira fosse parte da minha rotina diária, fizesse parte da lista dos meus afazeres cotidianos tanto quanto despertar, escovar os dentes, ir para o trabalho.


Passamos os dias subindo aquelas ladeiras sem nenhuma vez fazer num dia o mesmo que foi feito em outro. Comemos peixe e frutos do mar até a sua simples menção fazer enjoar o estômago. Conhecemos pessoas novas, lugares – paradisíacos! - novos. Na quinta-feira seguinte nos deleitamos com costelinha de porco, na terça anterior, Coré. Um dia ou outro pasta com

camarões e salmão. Um dia passamos no Tororomba, comemos bolinhos absurdamente gordurosos, visitamos o cemitério do local, enchendo as cabeças com histórias para serem contadas, bebemos água das fontes ferruginosas do local. Uns dias sequer almoçamos propriamente, andando em Ilhéus beliscando kibes, sorvetes e pudim de leite.

Triste tirar férias sem estar propriamente cansada, mas sempre boa a sensação de conhecer o novo, reconhecer o velho, aventurar-me a rir até a barriga doer, arriscar-me conhecer pessoas para me despedir depois com um abraço temeroso.


Volto para Brasília com aquele sensação que dá quando seu sobrinho te chama pra brincar, mas você está ocupado. Ansiosa para terminar meus afazeres e descobrir que novas aventuras a imaginação dele pretende te levar, o mais rápido possível. Mas retorno de novo, só pra ter logo a sensação de dever cumprido que me trará o início do meu próximo descanso.